terça-feira, 22 de junho de 2021

 

JANTAR DE GALA


O velho morreu

Sua carne, ou carcaça

Já começa a apodrecer

Tiraram-lhe as entranhas, e cérebro

Tudo aquilo que pode feder

Porque o Papa não fede

Nem pode

Já imaginou o fiel que chega

Na igreja, no átrio

Para ver, olhar, rezar e

Cheirar

Mas, não importa, o que sobra 

é que o velho morreu

Está na hora dele saber

Se existe algo do lado de lá

Se o lado de lá é algo mais que ver a Terra

Por outro ângulo

Se houver, não é problema meu

Se não houver, é problema dele.

Será que existe algo lá?

Mas não importa

O velho morreu

Será que os vermes que o vão comer

Saberão quem ele foi em vida?

Será algum banquete especial?

Aquele vermezinho pequeno

Ínfimo e miserável

Está tendo hoje, por jantar

Um prato que nenhum homem do mundo jamais teve.


segunda-feira, 14 de junho de 2021

 

SEMENTES DE ALMAS LIVRES


À espera do desabrochar

A semente esconde a impaciência

O sol aquecerá a terra

A água trará a umidade

Só aí então poderá soltar sua força


Enquanto nada disso acontecer

A semente quieta permanecerá

Sem angústias, sem incertezas

Apenas a esperar


E nós, sementes de almas livres

Prisioneiros destes edifícios de ossos e carne

Aguardamos o nosso sol

Ansiamos pela nossa água


Um dia partiremos ao desconhecido

Como a semente que ao germinar

desconhece seu futuro

Uma flor? Uma árvore?

Um tênue rebento comido por um pássaro?

Não lhe importa. Não se angustia por isso

Seu destino é o desabrochar


Nós. E nós o que somos?

Seres angustiados que desabrochamos

do encontro de duas sementes?

Ou somos sementes de almas

Nos preparando para enfrentar outro lugar?



  JANTAR DE GALA O velho morreu Sua carne, ou carcaça Já começa a apodrecer Tiraram-lhe as entranhas, e cérebro Tudo aquilo que pod...